
A expectativa era grande para o novo filme de Daniel Filho – ‘Chico Xavier’. O cinema brasileiro aguardava ansiosamente a biografia do maior médium do país. Além de uma complexa e bonita história, Xavier viveu e morreu como uma dúvida ou uma afirmação. Seus seguidores o veneravam. Os ‘não-espiritas’ duvidavam de seu poder. O que Daniel traz a esse filme não é esse questionamento e sim o que Chico e os espíritas acreditavam fazer.
Sua infância foi problemática. Era machucado pela madrinha. Seu pai era ausente. A mãe, falecida. Não tinha contato com seus irmãos. O que lhe restava: a fé e a amizade com Padre Scarzelo (Pedro Paulo Rangel). Essa fé que ao mesmo tempo lhe trazia crença e desconfiança de si mesmo. As conversas com sua mãe e com outros espíritos eram afirmadas como algo contra o catolicismo pregado. Pegou promessas, carregou pedras na cabeça, rezou diversos rosários, mas nada fez com que essas vozes sumissem. Apesar de existirem, as manifestações de estranhamento com esse poder de conversar com pessoas há muito mortas são deixados um pouco de lado. O pequeno Chico, no filme, acaba se mostrando um prodígio e entende muito rápido (talvez até rápido demais) que ele tem esse poder, mas que dificilmente encontrará quem acredite nele.
Já no corpo do ator Antonio Ângelo, a história começa a tomar mais forma e a semelhança com o médium impressiona. Xavier afirmava ter a companhia do espírito Emanuel em todos os momentos e, a partir da primeira conversa dos dois, ele começa a psicografar livros e cartas. Ele começa a ganhar notoriedade na pequena cidade de Pedro Leopoldo, sua família faz reclamações pelos atendimentos aos doentes e ele é obrigado a sair da pequena cidade. Assume, então, o papel o ator Nelson Xavier e fecha com maestria a história desse fenômeno brasileiro.
A história se passa em volta do programa Pinga Fogo, onde o médium responde a diversas questões, que já vão ligando ao seu passado. É nesse programa que ele se cruza com a vida de Orlando e Glória (Tony Ramos e Christiane Torloni) e ao psicografar uma carta do filho do casal, o filme chega a seu auge emotivo.
Essa obra é um orgulho para o cinema brasileiro. Daniel Filho usa da simplicidade ao mesmo tempo em que ousa nos movimentos de câmera. Belíssimas atuações, produções e um roteiro bem elaborado. Lógico que não chega à perfeição: é um filme parcial. Mas mesmo assim é bem trabalhado e emocionante. Em 5 minutos, o personagem consegue arrancar gargalhadas dos espectadores e emocionar na leitura da carta do filho de Glória e Orlando.
Criticados por muitos, o cinema nacional tem demonstrado evoluções e Chico Xavier é uma delas. Se outros cineastas se basearem em Daniel Filho, em poucos anos estaremos em outro patamar. Nas palavras do próprio médium: ‘ninguém pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas qualquer um pode recomeçar e fazer um novo fim’.





