sábado, 3 de abril de 2010

Ponto para o cinema brasileiro


A expectativa era grande para o novo filme de Daniel Filho – ‘Chico Xavier’. O cinema brasileiro aguardava ansiosamente a biografia do maior médium do país. Além de uma complexa e bonita história, Xavier viveu e morreu como uma dúvida ou uma afirmação. Seus seguidores o veneravam. Os ‘não-espiritas’ duvidavam de seu poder. O que Daniel traz a esse filme não é esse questionamento e sim o que Chico e os espíritas acreditavam fazer.

Sua infância foi problemática. Era machucado pela madrinha. Seu pai era ausente. A mãe, falecida. Não tinha contato com seus irmãos. O que lhe restava: a fé e a amizade com Padre Scarzelo (Pedro Paulo Rangel). Essa fé que ao mesmo tempo lhe trazia crença e desconfiança de si mesmo. As conversas com sua mãe e com outros espíritos eram afirmadas como algo contra o catolicismo pregado. Pegou promessas, carregou pedras na cabeça, rezou diversos rosários, mas nada fez com que essas vozes sumissem. Apesar de existirem, as manifestações de estranhamento com esse poder de conversar com pessoas há muito mortas são deixados um pouco de lado. O pequeno Chico, no filme, acaba se mostrando um prodígio e entende muito rápido (talvez até rápido demais) que ele tem esse poder, mas que dificilmente encontrará quem acredite nele.

Já no corpo do ator Antonio Ângelo, a história começa a tomar mais forma e a semelhança com o médium impressiona. Xavier afirmava ter a companhia do espírito Emanuel em todos os momentos e, a partir da primeira conversa dos dois, ele começa a psicografar livros e cartas. Ele começa a ganhar notoriedade na pequena cidade de Pedro Leopoldo, sua família faz reclamações pelos atendimentos aos doentes e ele é obrigado a sair da pequena cidade. Assume, então, o papel o ator Nelson Xavier e fecha com maestria a história desse fenômeno brasileiro.

A história se passa em volta do programa Pinga Fogo, onde o médium responde a diversas questões, que já vão ligando ao seu passado. É nesse programa que ele se cruza com a vida de Orlando e Glória (Tony Ramos e Christiane Torloni) e ao psicografar uma carta do filho do casal, o filme chega a seu auge emotivo.

Essa obra é um orgulho para o cinema brasileiro. Daniel Filho usa da simplicidade ao mesmo tempo em que ousa nos movimentos de câmera. Belíssimas atuações, produções e um roteiro bem elaborado. Lógico que não chega à perfeição: é um filme parcial. Mas mesmo assim é bem trabalhado e emocionante. Em 5 minutos, o personagem consegue arrancar gargalhadas dos espectadores e emocionar na leitura da carta do filho de Glória e Orlando.

Criticados por muitos, o cinema nacional tem demonstrado evoluções e Chico Xavier é uma delas. Se outros cineastas se basearem em Daniel Filho, em poucos anos estaremos em outro patamar. Nas palavras do próprio médium: ‘ninguém pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas qualquer um pode recomeçar e fazer um novo fim’.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ataque dos clichês


Um tema muito batido com uma história um tanto interessante e bons efeitos especiais. É nisso que ‘Lobisomem’, que estreou sexta-feira nos cinemas, se resume.

Aquele mesmo enredo de sempre: o personagem principal é mordido por um lobisomem e, por isso, vai se transformando em toda lua cheia, aterrorizando a cidade. O diferencial está em como, porque e por quem Lawrence Talbot (Benicio Del Toro) foi mordido, o que dá uma certa agitada na trama.

Nos primeiros minutos, pode-se pensar: mais um filme e Del Toro e Anthony Hopkins continuam com a mesma interpretação de sempre. É aí que entra o peso de um ator renomado e experiente. Sir John Talbot (Hopkins) rouba a cena na transformação que ocorre em seu personagem no meio do filme e o veterano responde muito bem. Del Toro também muda sua estrutura, que fica um pouco mais sentimental, destacando-se a cena em que estão no hospício e toda a trama se desenrola.

Temos um lado positivo e um muito negativo que não fogem da cabeça do espectador. Obviamente é um filme bem trabalhado, as cenas de luta são bem feitas (certas cenas tem um quê de filmes antigos), bem como a maquiagem e a ambientação. Mas o filme é exageradamente óbvio. O romance entre Lawrence e a viúva de seu irmão, Gwen Conliffe (Emily Blunt), já é perceptível na primeira cena e ocorre muito facilmente. O fim também é óbvio, sem surpresa alguma, a não ser por uma péssima tentativa de continuação.

Apesar de não entusiasmar, Lobisomem 2, que é praticamente certo, será assistido numa expectativa tremenda da possível fuga dos clichês em que o original se estagnou.

Avaliação: **

domingo, 24 de janeiro de 2010

Para os admiradores de musicais, decepção


A expectativa pelo musical do ano era grande. O mesmo diretor de Chicago (Rob Marshall) se arriscou ao tentar um novo sucesso, mas parece que já possui uma fórmula que agrada ao público para esse gênero que por muitos anos ficou desaparecido das telonas. No entanto, seu novo filme deixa a desejar.

Nine narra o período em que o diretor de cinema italiano Guido Contini (Daniel Day Lewis) tenta estruturar seu novo filme. Com o stress da formação de elenco, coletivas de imprensa e a divulgação do ainda não escrito roteiro, Guido parte para um 'auto-exílio' onde tem flashes de sua infância com a prostituta Saraghina (Fergie) e de sua relação com sua mão (Sophia Lauren, que se destaca no filme); também retrata sua relação com as amantes Carla e Stephanie (Penelope Cruz e Kate Hudson, respectivamente), sua esposa Luisa Contini (a maior estrela do filme Marion Cottillard) e sua ajudante Lili(Judi Dench). Todas essas relações complicadas e muito dramáticas para um musical.

Como todos sabem, musicais não são filmes fáceis de serem apreciados pelo público. Evita criou o rótulo por não haver diálogos entre os personagens, mas Moulin Rouge e Chicago provam que são divertidos e animados. O grande senão de Nine está nessa animação. Musicas ‘melosas’ e, por muitas vezes, longas fazem desse filme uma decepção para os fãs de musicais.

Avaliação: **

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

História certa na hora errada


‘Ray’ e ‘Piaf - Um Hino ao Amor’ são provas de que para se ter uma boa biografia é fundamental ter um ator à altura do homenageado. Jammie Foxx e Marion Cottilard – ambos ganhadores de Oscars por suas interpretações de Ray Charles e Edith Piaf – dão um show no quesito semelhança física e caráter. Mas, além disso, os dois filmes também se destacam pela belíssima história e montagem do filme.

Outra biografia recém-lançada é ‘Lula – O Filho do Brasil’, que traça a história do atual Presidente da República, desde o seu nascimento até sua ascensão ao sindicato. Sua história é realmente interessante. Uma prova da possível vitória de qualquer pessoa, independente das suas origens.

Mas como bom filme brasileiro está cheio de defeitos, começando pela abertura extremamente entediante e sem fundamento. Após a ida de Lula a Santos ainda pequeno, a história se torna agradável e os flashes da época chamam a atenção e dão um certo destaque. Tudo está indo bem até que Rui Ricardo Dias (Lula adulto) assume a trama. Algumas cenas, se fechado os olhos, pode-se imaginar um discurso do sindicalista. Em outras, não se sabe identificar o sotaque. Algo até bizarro. Relevando-se a atuação, acaba sendo um filme agradável, porém cansativo (são 130 minutos). Seu desfecho ocorre na hora certa e, se não fosse pela atual campanha eleitoral, seria até elogiado.

A história, como já foi dito, é interessante, mas é preciso Lula sair do Planalto e o Brasil evoluir muito em questões de roteiro e direção para que ‘O Filho do Brasil’ seja um sucesso.
Avaliação: **

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes



A transformação dos personagens de livros para a telona é interessante, mas pode destacar ou fazer com que ele perca seu brilho. Robert Langdon, Harry Potter e Frodo Bolseiro são provas disso. Estes foram extremamente elogiados pelos seguidores das sagas dos Anéis e de Potter, mas trouxe diversas críticas negativas aos fãs das aventuras do simbologista criado por Dan Brown. Um caso extremamente positivo é a releitura de Sherlock Holmes e seu companheiro John Watson feita pelo diretor Guy Ritchie (de Rock’nrolla).

O personagem, criado por Sir Arthur Conan Doyle, perdeu algumas de suas características como o boné cobrindo as orelhas e sua frase principal (‘Elementar, meu caro Watson’), mas ganhou a interpretação espetacular de Robert Downey Jr. Seus hábitos de higiene, sua irreverência e seu humor fazem de Holmes a versão de Jack Sparrow do final do século XIX e começo do XX.

Downey Jr., que interpretou o Homem de Ferro recentemente sem grandes destaques, é unanimidade na crítica internacional com o seu Sherlock (sua atuação lhe valeu um Globo de Ouro). Sua aventura está na caçada ao Lord Blackwood (Mark Strong), que comete uma série de assassinatos por Londres. Mesmo sendo preso logo no começo da trama, seus planos são bem sucedidos e ele assombra as ruas londrinas (destaque à reconstrução da cidade).

Para resolver todos os mistérios e também ‘assombrar’ a vida de Holmes com seu casamento, Dr. Watson acaba ganhando as cenas com a maravilhosa interpretação e releitura de Jude Law – que, após papéis fracos em Alfie e Closer, volta o destaque merecido que também teve em Círculo de Fogo.

Esse casamento de Law, Downey Jr. e Ritchie com certeza renderam mais frutos.Só resta torcer para que mantenham esse nível.
Avaliação: ****

domingo, 10 de janeiro de 2010

Incendiário


Os bons dramas são aqueles que, apesar de filmes tristes e parados, têm uma fórmula que envolve o espectador e faz com que ele se emocione com as situações do(s) protagonista(s). O Leitor, A Troca e Crash são provas de que esse gênero pode ser muito bem sucedido, pois seguiram essa fórmula e fizeram-nos sentir pena da mãe que perdeu o seu filho e do amor perdido de menino. O problema é quando um filme não atinge esse objetivo. Esse é o caso de ‘Incendiário’.
O filme, lançado em 2009, traz a história de uma jovem mãe (Michelle Williams) e seu sofrimento após perder seu filho e marido em atentado terrorista em um estádio de futebol. A descoberta da explosão se dá quando a personagem de Williams está na cama com Jasper (Ewan McGregor), em uma forte cena. Após o atentado, a protagonista entra em um triângulo amoroso, pois o amigo de seu falecido marido, Terrence (Matthew Macfadye), se apaixona por ela.
A monotonia começa a dar seus sinais já na primeira hora de filme, o vínculo de Michelle Williams com o público não se cria e o drama passa a ser pra quem a assiste.
Avaliação: *

sábado, 9 de janeiro de 2010

Férias Frustradas de Verão



A capa faz pensar: ‘isso eu já vi em algum filme’. Mas “Férias Frustradas de Verão” acaba surpreendendo o espectador e trazendo situações diferentes para esse tipo de comédia.
Obviamente não se trata de um blockbuster - nem para o cinema foi-, mas o que chama atenção no filme de Greg Montolla (diretor de Superbad) é a fuga do humor erótico – muito recorrente nos filmes adolescentes- e a opção por algo leve. Os diálogos e as inusitadas complicações do cotidiano do parque de diversões Adventureland surpreendem o espectador e acabam até divertindo.
Após perder a oportunidade de viajar à Europa nas férias de verão e para conseguir dinheiro para o curso de Jornalismo em Nova York, James (Jesse Einsenberg) se vê obrigado a trabalhar e o único lugar que é aceito é em Adventureland.
O filme se passa em 1987 e gira em torno da relação entre ele e a complicada Emily (Kristen Stewart), que se conhecem no parque. Alguns personagens como o estranho Joel (Martin Starr) e Bobby (Bill Hader) injetam o humor e tornam o filme uma sessão da tarde que vale a pena ser vista sem grandes expectativas.
O ponto negativo do filme está em Connell (Ryan Reynolds), que foi escalado para o papel em uma tentativa de ‘levantar’ um pouco a obra de Montolla, mas ele acaba deixando seu personagem extremamente sem graça. Não se sabe se Connell é o vilão por trair sua mulher e manter um romance com Emily ou o mocinho que dá conselhos e se interessa pelo romance de Em e James, algo interessante, mas pessimamente realizado por Reynolds, que saia de um sucesso absoluto em A Proposta.
Avaliação: **